'Tentei contato e ele me bloqueou': filha de 24 anos processa pai por abandono afetivo e relata vida de ausência
09/04/2026
(Foto: Reprodução) Abandono Afetivo: uma lei recente permite que filhos peçam indenização a pais omissos.
A história da corretora de imóveis Vitória Schroder, de 24 anos, é marcada pela ausência. Sem qualquer convivência com o pai desde o nascimento, ela cresceu tentando entender o vazio deixado por quem nunca esteve presente — e decidiu buscar na Justiça o reconhecimento por abandono afetivo.
“Eu não tenho memórias dele porque eu não o conheço, eu nunca o vi”, conta. Segundo Vitória, o único contato do pai aconteceu ainda antes de ela nascer.
“A história que me contaram é que, quando minha mãe engravidou, ele falou que não queria ter filhos. Ele passou lá em casa, buscou ela, levou ao cartório, me registrou e, desde então, ele sumiu.”
Para ela, o registro nunca foi suficiente. “Faltou participar da minha vida.”
A ausência se tornava mais evidente em momentos que, para outras crianças, eram de celebração. “Em datas comemorativas, em apresentações do Dia dos Pais, eu vendo aquelas crianças com os pais, eu não entendia por que o meu não estava ali também.”
Especialistas explicam que esse tipo de percepção costuma surgir ainda na infância. “Quando a criança compreende que tem alguém faltando, ela começa a se comparar com os outros e a se questionar”, afirma a psicóloga clínica e forense Andréia Calçada.
Sem o pai e, depois, também sem a mãe — que morreu quando Vitória ainda era pequena —, ela foi criada pelos avós maternos. Mesmo com o cuidado da família, as marcas do abandono afetivo permaneceram.
Ao longo dos anos, o impacto apareceu na forma como ela se via. “Eu cresci tirando notas boas porque, para mim, se eu não fosse perfeito, todo mundo iria me abandonar também, como se eu não valesse a pena, sabe?”
De acordo com a psicóloga Glícia Brasil, esse tipo de comportamento é comum. “Há medo de rejeição, ansiedade e dificuldade de acreditar que pode ser amado”, explica.
Já adulta, Vitória tentou, mais uma vez, se aproximar do pai — sem sucesso. “Uma última coisa que eu me recordo dele é de quando eu tentei entrar em contato diversas vezes e ele simplesmente me bloqueou.”
Vitória Schroder, corretora de imóveis, 24 anos, que processou o pai por abandono afetivo.
Reprodução/TV Globo/Fantástico
Aos 18 anos, ela decidiu entrar na Justiça por abandono afetivo. O pai foi condenado a pagar uma indenização de R$ 150 mil e recorreu da decisão.
Apesar da vitória judicial, Vitória diz que o processo não preenche a ausência. “Ajuda, mas não é tudo. Eu queria ter o meu pai.”
Para especialistas, a indenização não tem como objetivo substituir o vínculo, mas reconhecer a falha no dever de cuidado. A legislação brasileira passou a permitir esse tipo de ação de forma mais clara a partir de 2025, reforçando que a presença dos pais na vida dos filhos vai além do sustento financeiro.
Hoje, Vitória tenta ressignificar a própria história, mas ainda carrega perguntas sem resposta. Se pudesse falar com o pai, sabe exatamente o que diria:
“Falaria que sou a Vitória, que tenho 24 anos, que ele é meu pai, que hoje trabalho como corretora de imóveis em Goiânia. Eu perguntaria o porquê. Por que ele não quis fazer parte da minha vida?”
LEIA TAMBÉM:
Abandono afetivo: entenda a lei que permite que filhos peçam indenização a pais omissos
Abandono afetivo tem gênero: grande parte é causado por ausência paterna; entenda termo e conheça histórias
🎧 Ouça os podcasts do Fantástico
ISSO É FANTÁSTICO
O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.