MPF apura desmate que ameaça maior águia do planeta quase extinta no Pantanal
23/08/2026
(Foto: Reprodução) Harpia gigante é flagrada no pantanal sul-mato-grossense
O Ministério Público Federal (MPF) investiga possíveis irregularidades em autorizações ambientais concedidas pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) para a retirada de vegetação no Maciço do Urucum, em Corumbá.
A região é habitat de harpias (Harpia harpyja), espécie considerada a maior ave do planeta e quase ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
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O objetivo é verificar se o Imasul autorizou a retirada de vegetação no Maciço do Urucum sem a autorização prévia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), exigida pela legislação em determinadas áreas de Mata Atlântica com mais de 50 hectares.
🔎 A Lei 11.428/2006 prevê desde 2019 que quando a área for superior a 50 hectares em meio rural ou 3 hectares em área urbana (exceto em edificações e loteamentos), dependem da autorização do Ibama antes, para depois sim, ter a anuência do órgão ambiental estadual.
A investigação foi formalizada em portaria do MPF que determina a abertura de um inquérito civil. De acordo com a portaria, autorizações para retirada de vegetação concedidas em 2023, 2024 e 2025 foram destinadas a empresas de mineração de ferro que atuam na região.
Segundo o MPF, a situação ganha relevância diante de uma Nota Técnica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), que confirmou a existência de ninhos ativos de harpia na região.
A espécie é considerada ameaçada de extinção no documento do MPF, e os territórios de caça das aves coincidem com áreas de expansão minerária autorizadas.
A portaria determina que o Imasul encaminhe, no prazo de 15 dias, os processos administrativos que fundamentaram a emissão das autorizações ambientais.
O órgão também deverá apresentar as justificativas técnicas para a dispensa do conhecimento prévio do Ibama e informar se houve estudos sobre a presença de ninhos de harpia nas áreas licenciadas.
Além do Imasul, as empresas LHG Mining Corumbá S/A, Vetria Mineração S.A. e 3A Mining S.A. também são investigadas no procedimento.
O g1 entrou em contato com o Instituto mas não obteve responsta até a publicação desta reportagem.
Harpia gigante é flagrada com filhote em ninho no Pantanal.
Icterus Ecoturismo e Planeta Aves/Reprodução
Harpia é monitorada há 10 anos em Corumbá
Na região do Maciço do Urucum, em Corumbá, um casal de harpias é monitorado por pesquisadores há cerca de 10 anos.
Um dos ninhos usado pelo casal foi localizado em julho de 2025, após anos de buscas feitas por especialistas que estudam a fauna do Maciço do Urucum. A descoberta confirmou a presença reprodutiva da espécie na região.
Segundo o biólogo ouvido pelo g1, o ninho avistado funcionava como reserva. Isso porque em novembro de 2025, um filhote foi registrado pela primeira vez em um outro ninho.
Segundo os especialistas, o nascimento do filhote confirma a reprodução da maior águia do planeta no Pantanal e representa um avanço para os estudos sobre a espécie na região.
Ninhos reclusos
Segundo o biólogo Gabriel Oliveira, que participa do monitoramento, a harpia tem comportamento recluso, o que dificulta os registros.
A redução da população da espécie no Brasil também contribui para a dificuldade de observação das aves.
Os ninhos são outro desafio para os pesquisadores. De acordo com o biólogo, as harpias costumam escolher árvores gigantes, com mais de 40 metros de altura, para construir as estruturas. O padrão, no entanto, pode variar de acordo com a paisagem.
Em Corumbá, o ninho foi construído em uma árvore mais baixa do que as observadas em áreas da Mata Atlântica e da Amazônia, mas está localizado em uma região de difícil acesso.
As aves constroem grandes plataformas com galhos, revestidas com vegetação macia, onde abrigam os filhotes.
Características únicas
A harpia, também conhecida como gavião-real, pode atingir cerca de 2,20 metros de envergadura. A ave é cada vez mais difícil de ser observada na natureza.
A IUCN classifica a harpia como "quase ameaçada". Segundo especialistas, o número de registros da espécie tem diminuído no país.
Gabriel Oliveira explica que a harpia costuma colocar dois ovos por vez, mas, geralmente, apenas um filhote sobrevive.
A incubação dura cerca de 56 dias. Depois do nascimento, o filhote permanece dependente dos pais por até dois anos.
Por investir um longo período na criação de cada filhote, a espécie apresenta um intervalo reprodutivo de aproximadamente três anos, segundo o biólogo.
Na hora de caçar, a harpia utiliza uma estratégia de espera. Segundo Oliveira, a ave permanece imóvel em locais estratégicos por períodos prolongados, aguardando o momento adequado para atacar.
A espécie também consegue voar com agilidade entre os galhos das árvores, característica que facilita a perseguição das presas.
A harpia depende de áreas de floresta contínuas e extensas. Segundo o biólogo, o território utilizado por um casal pode variar de 20 a 35 km².
Por essa dependência de grandes áreas preservadas, a espécie é considerada uma espécie-bandeira para a conservação das florestas tropicais. Como predadora, a harpia também contribui para o controle das populações de mamíferos que vivem nas árvores e para o equilíbrio do ecossistema.
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