Entre caças e explosões: o drama de família brasileira abrigada no subsolo de prédio em Dubai
07/03/2026
(Foto: Reprodução) Quarto de família brasileira em Dubai
Arquivo pessoal
Uma família brasileira vive dias de medo e incerteza em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, após o agravamento dos conflitos entre Estados Unidos, Israel e Irã que afetaram o tráfego aéreo em todo o Oriente Médio. Sem conseguir retornar ao Brasil, eles relatam que passaram a rotina se escondendo em áreas subterrâneas do prédio onde estão hospedados sempre que alertas de possíveis ataques são disparados.
Os confrontos começaram no dia 28 de fevereiro e provocaram o fechamento temporário de aeroportos e o cancelamento generalizado de voos na região. Mesmo após a reabertura gradual, as operações aéreas ainda não foram totalmente normalizadas.
A brasileira, que está em Dubai com o marido e as filhas, contou ao g1 que a família estava em uma viagem pela Itália e tinha planejado passar dez dias na cidade dos Emirados Árabes, mas o cenário mudou no quarto dia.
"Na noite do dia 28 de fevereiro, quando estávamos comemorando nosso aniversário de casamento, recebemos um alerta no celular orientando que todos deveriam descer imediatamente para o subsolo do prédio para se proteger."
Eles estavam hospedados em um apartamento alugado por temporada próximo ao Burj Khalifa, no 54º andar de um prédio residencial.
"Descemos imediatamente com as crianças para o lobby. Elas estavam muito assustadas. Nosso apartamento ficava em um andar bem alto, no 54º andar, praticamente de frente para o Burj Khalifa."
"O alerta é emitido pelo celular com um barulho muito alto. Estávamos com três aparelhos e smartwatches, e todos dispararam ao mesmo tempo. É algo muito assustador, até porque não estamos habituados com um cenário de guerra." A mensagem orientava a procurar abrigo imediatamente por ameaça de ataque com míssil (veja abaixo).
Alerta enviado pelo celular
Reprodução
"Ficamos cerca de duas horas no lobby. Depois decidimos ir para o estacionamento, que também fica em uma área subterrânea, e só voltamos para o apartamento quando chegou uma nova mensagem dizendo que a situação estava aparentemente normal. Isso demorou bastante."
"A gente dorme ouvindo aviões de caça e passa o dia escutando explosões."
Desde então, os avisos de risco passaram a fazer parte da rotina. "Você recebe a mensagem dizendo que tem um míssil se aproximando e precisa procurar abrigo imediatamente. É uma questão de tempo, e a inexperiência gera muito estresse e medo", relatou.
A família afirma que já recebeu entre cinco e seis alertas desde o início do conflito.
Quarto com as cortinas fechadas
Arquivo pessoal
Voos cancelados
O voo de retorno da família ao Brasil estava originalmente marcado para o dia 8 de março, por uma companhia aérea italiana. No entanto, no dia 5 de março, eles receberam a informação de que a viagem havia sido cancelada.
"Nosso voo de retorno estava originalmente marcado para domingo (8), por uma companhia italiana. No dia 5 de março recebemos a informação de que o voo havia sido cancelado e remarcado apenas para o dia 13."
Diante da incerteza, a família decidiu comprar novas passagens por conta própria para tentar antecipar o retorno. A decisão foi tomada depois de novos alertas de risco nos últimos dias.
"Sabemos que há cerca de 15 mil brasileiros aqui e que nem todos querem ir embora, mas é uma situação delicada."
Drone iraniano atinge área do consulado americano em Dubai
Ela afirma que, até o momento, o governo brasileiro tem divulgado apenas orientações gerais para quem está na região.
"No caso do Brasil, vimos o perfil do consulado no Instagram publicando orientações, telefones de emergência e sugerindo rotas de saída por países como Arábia Saudita ou Omã, além de alertar sobre os riscos."
Segurança em 1º lugar, diz especialista
De acordo com a advogada especialista em Direito do Passageiro Aéreo, Luiza Costa Russo, em situações como essa é fundamental que os viajantes priorizem a segurança e sigam as orientações das autoridades locais.
"A orientação é seguir rigorosamente todas as medidas determinadas pelas autoridades locais e permanecer em locais protegidos, como abrigos ou áreas seguras indicadas pelos hotéis."
A especialista também recomenda que os brasileiros procurem apoio das autoridades diplomáticas.
"É importante procurar a embaixada ou o consulado do seu país. Em alguns casos, também é possível buscar apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil para orientações e eventuais operações de repatriação."
Segundo a advogada, o fechamento do espaço aéreo por causa de guerra ou conflito armado é considerado um caso de força maior, o que limita a responsabilidade das companhias aéreas.
"Nesse cenário, as companhias aéreas não têm como prever o evento nem controlar suas consequências. Por isso, elas ficam isentas de responsabilidade por eventuais prejuízos decorrentes da interrupção dos voos."
Ela explica que a retirada de passageiros de áreas de conflito pode depender de operações especiais.
"Quando o espaço aéreo está fechado para a aviação civil, uma eventual retirada pode ocorrer apenas com apoio de forças armadas ou operações governamentais, que possuem autorizações específicas para circular em áreas restritas."
Mesmo após a reabertura dos aeroportos, o grande volume de voos cancelados pode dificultar a reorganização dos passageiros.
"Se cerca de dez voos forem cancelados, estamos falando de aproximadamente dois mil passageiros precisando de novos assentos. Isso cria uma demanda muito alta e dificulta uma solução imediata."
Segundo ela, companhias com grande presença local, como a Emirates, tendem a ter mais estrutura para reorganizar os passageiros.
Ainda assim, despesas extras, como hospedagem durante o período de interrupção dos voos, podem não ser responsabilidade das companhias aéreas quando o cancelamento ocorre por motivo de força maior.
A família não tem fotos do lobby e do estacionamento porque tem receio de multas.