Brasil se desculpa por violações da ditadura contra ex-líder estudantil da UnB desaparecido em 1971
02/07/2026
(Foto: Reprodução) Sobrinho e ex-colega de Paulo de Tarso Celestino em ato de pedido de desculpas formal realizado na UnB
Maria Eduarda Caldo / g1 DF
O Estado brasileiro pediu desculpas formais à população pelas violações de direitos humanos cometidas, mais de cinco décadas atrás, contra o ex-aluno da Universidade de Brasília (UnB) e advogado Paulo de Tarso Celestino da Silva.
Paulo de Tarso foi preso durante a ditadura militar, em 1971, e levado à Casa da Morte, centro clandestino de prisão, tortura e execução mantido pelo Centro de Informações do Exército (CIE) em Petrópolis (RJ).
Depois disso, o advogado nunca mais foi visto. A morte só foi "oficializada" em 1995, com a sanção da Lei dos Desaparecidos Políticos. O corpo nunca foi encontrado.
A cerimônia de pedido de desculpas foi realizada nesta quinta-feira (2) na UnB, onde Paulo se formou em direito e se destacou como líder estudantil.
"Esse ato aqui é um ato de respeito à história, à vida e à luta do Paulo Celestino e de outros presos políticos que morreram, que foram assassinados" destacou Jarbas Marques, que foi-colega do homenageado.
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O ato integra as ações de memória, verdade e reparação conduzidas pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).
Sobrinho de Paulo de Tarso, João Paulo de Tavares compareceu à cerimônia e classificou o momento como "difícil" para a família. João Paulo não conheceu o tio, mas se lembra das histórias contadas pela avó e pelo pai.
"Nenhum pedido de desculpas, mesmo que formal, vai devolver o que nós perdemos. O desaparecimento do meu tio provocou um monte de traumas na família", lamentou.
A cerimônia faz parte das medidas determinadas pela Justiça Federal ao julgar ação civil pública do Ministério Público Federal (MPF). Na decisão, o pedido formal de desculpas ao país é tratado como uma forma de "reparação simbólica".
De acordo com o MPF, o caso do desaparecimento de Paulo de Tarso Celestino da Silva, visto pela última vez na Casa da Morte, em Petrópolis, RJ, configura em crime contra humanidade
Divulgação/Comissão da Verdade
Integrantes do Exército responsabilizados
Na mesma decisão, a Justiça reconheceu a responsabilidade de dois ex-integrantes do Centro de Informações do Exército (CIE) por graves violações de direitos humanos relacionadas ao desaparecimento do advogado.
O ministério afirma ainda que a iniciativa representa um compromisso do Estado brasileiro com a memória, a verdade e a não repetição de violações de direitos humanos.
"As marcas da violência de Estado, as ausências jamais reparadas e as estruturas que permitiram graves violações dos direitos humanos infelizmente não desapareceram com a redemocratização", afirmou a ministra Macaé Evaristo.
"Esses traumas atravessaram gerações e ainda desafiam o Brasil em seu processo de reconciliação com a própria história".
Homenagens a pessoas mortas durante a Ditadura Militar, na cerimônia de pedido de desculpas
Maria Eduarda Caldo / g1
Quem foi Paulo de Tarso?
Natural de Morrinhos (GO), Paulo de Tarso Celestino da Silva nasceu em 26 de maio de 1944. Filho do advogado e deputado federal Pedro Celestino da Silva, que teve o mandato cassado pelo regime militar, formou-se em Direito pela Universidade de Brasília em 1969.
Durante a graduação, presidiu a Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (FEUB) e se tornou uma das principais lideranças do movimento estudantil.
Depois de concluir o curso, exerceu a advocacia, fez pós-graduação na Universidade de Sorbonne, na França. Posteriormente, passou a integrar a Ação Libertadora Nacional (ALN), organização que fazia oposição ao regime militar, chegando a ocupar o cargo de comandante nacional do grupo.
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Em 12 de julho de 1971, aos 27 anos, Paulo de Tarso foi preso por agentes do Destacamento de Operações de Informações (DOI-Codi), no Rio de Janeiro.
De acordo com as investigações do Ministério Público Federal, ele foi submetido a intensas agressões físicas e psicológicas nas dependências do órgão antes de ser levado para a chamada "Casa da Morte".
Grande parte do que se sabe sobre os últimos momentos do advogado foi relatada por Inês Etienne Romeu, única sobrevivente conhecida da Casa da Morte.
Planta em detalhes da 'Casa da Morte'
Comissão Nacional da Verdade
Segundo o depoimento, Paulo de Tarso foi submetido a cerca de 48 horas de tortura. Ele foi colocado no pau de arara, recebeu choques elétricos, foi obrigado a ingerir grande quantidade de sal e permaneceu por horas sem receber água.
🔍 a Casa da Morte funcionou como um centro clandestino de tortura utilizado pelo Centro de Informações do Exército (CIE). No local, presos políticos eram interrogados, torturados e, em muitos casos, mortos. O imóvel foi tombado em 2018 e deverá ser transformado em um memorial dedicado à preservação da memória sobre as violações cometidas durante a ditadura militar.
Após o desaparecimento, a família iniciou uma longa busca por informações. Em dezembro de 1971, o Ministério do Exército informou à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que Paulo de Tarso havia sido preso por autoridades militares e posteriormente entregue à Polícia Federal.
Mais tarde, porém, o próprio ministério desmentiu a informação, alegando que ela havia sido prestada por engano. Sem respostas, o pai do advogado, Pedro Celestino, escreveu cartas a diversas autoridades do regime militar, mas o apelo nunca foi respondido.
Em 1975, o então ministro da Justiça, Armando Falcão, afirmou publicamente que Paulo de Tarso estava entre os desaparecidos considerados foragidos. A declaração foi contestada pelo pai do advogado, que publicou uma carta aberta apontando contradições entre as versões apresentadas pelo Ministério da Justiça e pelo Ministério do Exército.
A morte do advogado foi reconhecida pela Lei nº 9.140, de 1995, que declarou mortas as pessoas desaparecidas em decorrência de ações de agentes públicos durante o regime militar. Seu nome também integra o Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade e o Relatório da Comissão da Verdade Anísio Teixeira, da Universidade de Brasília.
A decisão da Justiça
Em 2025, a 1ª Vara Federal de Petrópolis (RJ), em ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal, reconheceu a responsabilidade de dois ex-integrantes do Centro de Informações do Exército (CIE) pelas violações de direitos humanos cometidas contra Paulo de Tarso.
Além de condenar os réus ao ressarcimento da indenização paga pela União à família do advogado e ao pagamento de indenização por danos morais coletivos, a sentença determinou que a União apresentasse um pedido formal de desculpas à população brasileira, com menção expressa ao caso de Paulo de Tarso.
A decisão também determinou a adoção de medidas voltadas à preservação da memória e da verdade sobre os crimes praticados na Casa da Morte, reafirmando o direito da sociedade de conhecer as violações cometidas durante a ditadura militar.
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