Alta de bicicletas elétricas expõe falta de ciclovias e regras no Rio; especialistas dizem como reduzir acidentes
02/04/2026
(Foto: Reprodução) Alta de bicicletas elétricas expõe falta de ciclovias e regras no Rio; especialistas apontam soluções para evitar acidentes
O crescimento acelerado das bicicletas elétricas no Brasil, que saltaram de 7,6 mil unidades em 2016 para 284 mil em 2024, tem exposto um problema estrutural no Rio de Janeiro. A falta de ciclovias, de regras claras e de fiscalização. Nas ruas, motoristas, pedestres e ciclistas relatam insegurança diante da disputa por espaço em uma cidade que não acompanhou a nova realidade da mobilidade.
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Especialistas afirmam que medidas simples poderiam reduzir os riscos, como a diminuição da velocidade das vias, a melhoria da sinalização e a ampliação de espaços exclusivos para bicicletas.
"Pra mim tá uma terra sem lei porque não há respeito. É bicicleta sem de capacete, no asfalto, mas também nas calçadas. A gente meio que fica competindo e toma susto", diz a psicóloga Claudia Oliveira.
Mãe e criança morrem em acidente na Tijuca
Betinho Casas Novas/TV Globo
Estrutura atual
O aumento no número de bicicletas elétricas nas ruas do Rio não foi acompanhado por infraestrutura adequada. Sem espaço definido, ciclistas dividem vias com carros ou circulam pelas calçadas, o que amplia o risco de acidentes e conflitos.
A prefeitura não possui dados oficiais sobre quantas bicicletas elétricas circulam na cidade. Segundo a CET-Rio, o município tem cerca de 500 quilômetros de infraestrutura cicloviária.
Apesar disso, a convivência entre modais segue marcada pela desorganização. Motoristas reclamam da circulação no meio do trânsito, pedestres se sentem ameaçados nas calçadas e até ciclistas relatam desconforto.
"Às vezes me sinto inconveniente com o pedestre, é muito complicado. Me sinto inconveniente, mas não tem o que fazer", afirma a psicóloga Ane Saraiva.
Promessa antiga
A ampliação de ciclovias no Rio é uma promessa antiga da gestão municipal.
Em 2023, já sobre o comando de Eduardo Paes (PSD), a prefeitura lançou o Plano de Segurança Viária e reconheceu o aumento do número de ciclistas na cidade, impulsionado principalmente pela pandemia.
"O uso da bicicleta como meio de transporte foi potencializado com a pandemia da Covid-19, quando a circulação de ônibus e trens foi restringida e muitos indivíduos passaram a optar por modos ativos ao ar livre. Após os anos mais críticos da pandemia (2020 e 2021), há mais ciclistas circulando pela cidade do que nos anos anteriores", dizia o documento.
Sem ciclovia ou ciclofaixa, ciclista precisa se arriscar pedalando na Rua São Clemente, em Botafogo, na Zona Sul.
Reprodução Google Maps
Plano só no papel
No mesmo ano, a Secretaria Municipal de Transportes apresentou o Plano de Expansão Cicloviária — o CicloRio, com a meta de ampliar a malha para mil quilômetros até 2033.
Mas em um ano, a extensão das ciclovias aumentou apenas 1,9%, segundo dados da associação de empresários e lojistas do setor. Isso significa cerca de 10 quilômetros a mais dos 457 que a cidade possuía em 2023. Muito longe da meta da Prefeitura.
O Rio foi a 6ª capital do país que menos aumentou infraestrutura para bicicletas. Em termos proporcionais, a cidade aparece como a 6ª pior capital do Brasil em infraestrutura cicloviária por habitante.
Ciclofaixa na Rua Uruguai, na Tijuca, Zona Norte da cidade, foi demarcada em 2024.
Reprodução Google Maps
Exemplos ruins
Na prática, a falta de estrutura é visível em diferentes pontos da cidade. Ciclistas se arriscam em vias movimentadas e até em locais proibidos, como o Túnel Santa Bárbara, na Zona Sul.
Em calçadas estreitas, com postes, árvores e buracos, a convivência com pedestres se torna inevitável e muitas vezes sem sinalização adequada. Na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, onde um acidente recente terminou com duas mortes, moradores cobram há anos mais segurança e organização do trânsito.
Mesmo onde há intervenções, os problemas persistem. Na Gávea, a criação de uma ciclofaixa melhorou a segurança em um trecho, mas a retirada da faixa no sentido oposto gerou críticas.
"Ela é fundamental, mas infelizmente foi retirada do outro lado da pista aqui na descida sem nenhuma explicação, foi colocada e foi tirada, E agora só tem aqui desse lado, na subida", afirma o professor Davison Coutinho.
Soluções simples
Para especialistas, o cenário atual não é inevitável e pode ser revertido com medidas relativamente simples.
"Acredito que olhando todos os estudos, olhando os exemplos internacionais, a gente precisa dar realmente preferência para os mais vulneráveis", afirmou a professora Marina Baltar, da Coppe/UFRJ.
Ela defende ações diretas para melhorar a convivência no trânsito.
"Primeira coisa, buscar reduzir velocidade das vias que a gente quer que seja mais agradável para todos os modos. Então, uma redução de velocidade. Segundo melhorar a sinalização. Onde der para botar a ciclovia, a gente bota a ciclovia bem-sinalizada, com placas, com pintura e onde a gente só tiver uma ciclo-rota, a gente também sinalizar. 'Olha aqui, a bicicleta é bem-vinda, a bicicleta pode passar por aqui, a gente tem uma sinalização horizontal presente, uma sinalização vertical'".
Mesmo com a ciclovia vazia, ciclista prefere se arriscar no meio dos carros.
Raoni Alves / g1 Rio
A professora acredita que a principal mudança tem que ser sobre que modelo de cidade deve ser incentivado pelo poder público.
"A gente precisa pensar que a cidade não pode continuar sendo só pensada para o carro. Existem muitos lugares que a gente vai ter que sim, perder o estacionamento. A gente vai ter que perder alguma área que era utilizada para o carro, para acrescentar área para os ciclistas, para os pedestres, que são os mais vulneráveis e quem precisa de proteção", argumentou.
Outro ponto central é a necessidade de regulamentação. Embora exista uma resolução nacional desde 2023 que estabelece regras para esses veículos, o Rio ainda não regulamentou como as normas serão aplicadas localmente.
Na prática, isso impede a fiscalização e a aplicação de multas, deixando condutores e pedestres em um cenário de insegurança. Para os especialistas, a solução passa por uma decisão política.
"É uma escolha, é uma decisão. A gente precisa decidir que a cidade vai ser para as pessoas e não para os carros. E eu acho que é essa decisão que às vezes é difícil de enfrentar, mas que a gente precisa enfrentar".
"Existem soluções simples, existem soluções complexas. São soluções simples que a gente consegue atingir hoje. Uma melhora na sinalização, uma demonstração de força desses meios de transporte, uma redução de velocidade. Tudo isso não é tão difícil. Não é um sonho utópico que muitas vezes a gente pensa".
O que diz a Prefeitura do Rio
Procurada pela equipe do RJ2, a Prefeitura do Rio não respondeu sobre o plano de expansão cicloviária que tem avançado lentamente. Segundo a Cet-rio, atualmente, são cerca de 500 quilômetros de extensão total de infraestrutura cicloviária em toda a cidade.